2 de julho de 2010

Palavra divina, palavra humana


Na Bíblia, toda a palavra do céu que nos alcança passa pela terra, portanto por um ponto particular no espaço e no tempo. Daí o seu sabor e o seu limite. Por exemplo, estaríamos mais seguros sobre Moisés se o próprio Moisés nos falasse. Mas é humano que na história de um povo se continue a falar de um grande homem muito tempo depois dele: os ecos mais longínquos são historicamente menos seguros. Deus não impede isso e até o utiliza. E isto vale também para os evangelhos. A palavra de Deus permanece humana: Deus economiza as revelações directas e não dá, em geral, visões sobre o passado longínquo, o que asseguraria uma melhor exactidão histórica. É necessário ter isto em conta quando lemos os relatos.


Humano significa que não é suficiente interessar-nos por aquilo que é dito: é preciso ocupar-se também daquele que fala: Deus revela-se não apenas por ele mas nele. A sua própria maneira de falar é já uma revelação. Portanto, é preciso perguntar-se: como é, quem é, onde está aquele que fala.

Não teríamos necessidade deste género de estudos, se Deus passasse por cima daquele que fala e o utiliza-se como uma telegrafista ou um carteiro. Deus inspira uma palavra: não é a mesma coisa que a ditar. Desde Pio XII (Divino afflante Spiritu, 1943), a Igreja convida-nos com insistência a percorrer este caminho com fórmulas como «maneira de falar, estilo, género literário, hábitos de linguagem de um homem e de uma época», etc. Os limites e as fragilidades que encontramos não nos autorizam a dizer que não estamos perante a palavra de Deus. Ela é sempre de Deus mesmo nas nossas fragilidades e talvez sobretudo por elas. (Paul Beauchamp, Parler d’Écritures Saintes, Le Seuil, Paris 1987).

2 comentários:

  1. ...
    Porque tudo o que invento já foi dito
    nos dois livros que eu li:
    as escrituras de Deus,
    as escrituras de João.
    Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.

    In Bagagem, Adélia Prado

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  2. Se a Bíblia, essa Palavra do céu que nos alcança, passa pela terra, vale a pena celebrar este mesmo Deus que nos une. Parabéns ao grupo Raízes pela iniciativa. Tenho muita pena em não poder participar. Como estou de serviço no jornal, apenas poderei dar-vos o meu abraço no almoço. Levem panados para mim pk eu vou aparecer por lá e sentir, com uma ponta de ciúme, aquilo que todos vós ireis viver.

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