5 de julho de 2010

Perguntas ao prof. João Alberto Correia (3)




Grupo Raízes: Evangelho de Lucas - Actos dos Apóstolos: podemos dizer que são duas pinturas de um mesmo painel. Que sinais no texto, na temática, na teologia podemos encontrar que nos fazem ler ambas as obras como se fossem dois capítulos do mesmo livro? 

Prof. João Alberto:
A unidade Lucas-Actos foi já defendida em 1679 por J. Lightfoot e é hoje admitida pela generalidade dos exegetas que, para isso, se apoiam nos critérios da língua, do estilo e da teologia de ambos os escritos. Eis os aspectos formais que indiciam esta unidade:
- Act 1, 1 (“no meu primeiro livro”) requer a existência de um outro livro. Sendo um começo semelhante ao do segundo livro da obra de Flávio José “Contro Apione” (“no meu primeiro livro desta obra…”), parece espelhar uma prática corrente na historiografia da época.
- O final de Lucas (24, 44-53) está ligado ao começo de Actos (1, 1-11). Além disso, Act 1, 1 evoca necessariamente Lc 1, 1-4. Esta prática era frequente no método historiográfico do tempo de Lucas.
- Dado que Lucas é escrito pelos anos 80, “os factos que entre nós se consumaram” (Lc 1, 1) abarcam necessariamente toda a obra de Jesus e da comunidade cristã contidos em Lucas e Actos respectivamente.
Porém, os argumentos mais preciosos para a afirmação desta unidade provêem da análise estrutural de toda a obra de Lucas. Para esta análise, partimos de três critérios:
§  geográfico: sublinha a centralidade de Jerusalém, ponto de partida e de chegada em Lucas e Actos;
§  literário: sublinha a ligação entre as introduções e as conclusões dos dois livros;
§  literário-temático: fundamenta-se em paralelismos que evidenciam a semelhança entre Jesus e o Baptista (cfr. Lc 1, 5 - 4, 44) e entre a história de Jesus, a dos seus apóstolos e a da sua comunidade.

Critério geográfico-simbólico: Jerusalém
Jerusalém ocorre em Lucas-Actos numa proporção muito superior à do NT. O evangelho da infância (1, 5-2, 52) começa no templo, em Jerusalém, e aí termina com o episódio de Jesus entre os doutores. O evangelho vai terminar com as aparições de Jesus ressuscitado em Jerusalém (Lc 24).
Todos os exegetas estão de acordo sobre a importância teológico-estrutural do motivo literário “ir para Jerusalém” que divide em quatro etapas a “viagem de Jesus para Jerusalém”, coração do evangelho (cfr. Lc 9, 51; 13, 22; 17, 11; 19, 28).
Também nos Actos, Jerusalém ocupa uma função estrutural. Até Act 8, 1, a Igreja ex-pande-se em Jerusalém. Jerusalém é a cidade onde é celebrado o concílio, coração dos Actos (15). A cidade santa é o ponto de chegada da 2ª viagem de Paulo e o ponto de partida da terceira (18, 23), assim como a meta desta. Nesta terceira viagem, é interessante notar que Paulo pressente a ameaça de morte (20, 16.22; 21, 4.12.13.15.17), motivo semelhante ao da predição da morte de Jesus durante o seu caminho para Jerusalém (cfr. Lc 9, 21-22.43-45; 18, 31-34).
Concluindo: Jerusalém é um elemento estruturante quer em Lucas quer em Actos, ainda que mais claro no evangelho que nos Actos.

Critério literário: a introdução e a conclusão
Os dois prólogos (Lc 1, 1-4; Act 1, 1-2) evocam-se mutuamente. Além disso, a intro-dução narrativa dos dois livros (Lc 1, 5 - 4, 44; Act 1, 3-8, 1) tem na forte presença do Espírito um elemento comum (18x em Lc 1-4; 24 em Act 1-7).
Também a conclusão do evangelho (Lc 24) e o início dos Actos (Act 1) estão in-trinsecamente ligados pelos motivos que, a seguir, elencamos:
- os apóstolos são designados “testemunhas” (Lc 24, 48; Act 1, 8);
- “começando por Jerusalém” (Lc 24, 47; Act  1, 8   -“em Jerusalém”-);
- Jesus vai enviar a promessa do Pai (Lc 24, 49; Act 1, 4 -“Prometido do Pai”-);
- os apóstolos são convidados a permanecerem na cidade até serem revestidos com a força do Alto (cfr. Lc 24, 49; Act 1, 8 –“ides receber uma força, a do Espírito Santo”-);
- a ascensão (cfr. Lc 24, 50-53; Act 1, 9-11).
Lc 24, 44-47 pode ser visto como um prelúdio dos discursos da primeira parte dos Actos dos Apóstolos. O anúncio da salvação, partindo de Jerusalém, alcançará todos os povos.
Além da notável inclusão (a inclusão é um processo literário que, retomando no fim de um relato ou livro o que se disse no princípio, mostra que a obra está terminada e forma um todo) que estrutura e delimita o livro dos Actos (o Reino de Deus e o que diz respeito a Jesus são os aspectos comuns), podemos também falar de uma inclusão entre o começo de Lucas e o fim dos Actos: Lucas transmite quanto lhe haviam transmitido a si (cfr. Lc 1, 1-4), tal como Paulo, em Roma, anunciava o Reino de Deus e ensinava o que dizia respeito ao Senhor Jesus Cristo (cfr. Act 28, 31).

Critérios temáticos: os paralelismos
O paralelismo é típico de Lucas e encontra-se quer no interior do próprio evangelho (veja-se o paralelismo entre João Baptista e Cristo) quer entre o evangelho e os Actos: o evangelho da infância e particularmente o hino dos anjos (2, 10-11) tem a sua ressonância no evangelho (19, 38) e nos Actos (10, 36). Também o hino de Simeão (2, 30-32) ecoa no fim dos Actos (28, 28).
Um outro paralelismo evidente resulta da comparação entre a morte de Cristo e a de Estêvão, particularmente a invocação final (cfr. Lc 23, 46 e Act 7, 59) e no perdão pedido para aqueles que os matam (cfr. Lc 23, 34; Act 7, 60).
O terceiro paralelismo encontramo-lo no caminho de Jesus e Paulo para Jerusalém e o pressentimento da morte violenta, de que já falámos.

Sem comentários:

Enviar um comentário

10 de Julho, venha lá!